Com certeza essa é uma notícia chamativa. Tem cara de reportagem de capa de todos os jornais e revistas do mundo! Mas por quê só saiu numa manchetezinha pequena lá em cima da capa da revista ÉPOCA de 24 de Maio de 2010? Já imaginei que teria alguma coisa fantasiosa pelo meio para que a ÉPOCA e outras revistas não tivessem colocado essa matéria como reportagem de capa. Dito e feito. Acompanhem o resumo da reportagem e tirem suas próprias conclusões a respeito da veracidade desta manchete.
“Deus criou o homem no sexto dia e no sétimo descansou, lê-se no Livro do Gênesis. Foi também numa sexta-feira, 26 de março, que uma equipe de geneticistas do Instituto J. Craig Venter, nos Estados Unidos, substituiu o DNA de uma bactéria por outro, artificial. Segundo anúncio feito na semana passada, junto com a publicação do estudo na revista Science, eles conquistaram um atributo exclusivo dos deuses: o dom de fabricar vida.” ÉPOCA 24/05/10
Me corrijam se eu estiver errada, mas trocar o DNA de uma mísera bactéria (uma das mais simples) e ela simplesmente não morrer, definitivamente não é o mesmo que criar vida. Certo? Venter pegou uma bactéria chamada Mycoplasma mycoldes - cujo DNA é extremamente simples, retirou seu material genético, pegou esse material e enxertou material sintético, depois recolocou na bactéria inicial e ela não morreu. Viva! Criaram vida. Sério?! Se numa receita de bolo eu troco leite integral por leite desnatado e o bolo não desanda, significa que eu criei uma nova receita?! Não! Continuei fazendo bolo, só troquei seis por meia dúzia. Acho que uma manchete de bom tamanho seria: ele interferiu na vida. E vida bacteriana, simplíssima. Quem sabe isso seja um grande passo para futuras pesquisas genéticas, mas dizer que se criou vida eu acho um exagero. A própria revista admite esse excesso, quando o professor Sérgio Danilo Pena da UFMG fala:
“Quando Venter dá a impressão de ter criado vida sintética, ele erra. A vida surgiu no planeta uma única vez, há 4 bilhões de anos, e desde então vem evoluindo e se diversificando. O que Venter fez foi modificar o genoma, o programa que controla a vida. Ele não criou vida. Simplesmente assumiu o controle dela – o que é um feito maravilhoso.” ÉPOCA 24/05/10
Viva, uma faísca de sobriedade! Um outro exemplo maravilhoso que a revista dá, porém muito timidamente, é a fertilização in vitro: esta técnica é o mesmo que criar vida? Lógico que não. Da mesma forma ocorreu com essa descoberta controversa do caro doutor Craig Venter, que no mínimo sofre da velha síndrome de querer ser Deus. Interferir minimamente, numa bactéria bilhões de vezes mais simples que um ser humano, e ela simplesmente não morrer, NÃO É CRIAR VIDA! Aproveito para inflamar mais e dizer: querer criar vida a partir de outra, é definitivamente mais fácil do que cria-la a partir do barro, não? Tsc, tsc, tsc... Benchmarking é para os fracos! E tenho dito!
Para a reportagem completa da revista Época (24/05/10) Clique AQUI.
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Aldrêycka Albuquerque

